sábado, 27 de dezembro de 2008

Insônia..........


















Enquanto ouço o silêncio e busco cintilâncias no escuro do quarto, passeio o pensamento por desconfortos, alegrias, saudades, expectativas. Enquanto amarroto lençóis desembrulho pequenas e generosas lembranças ou destampo frascos de terríveis venenos.
Primeiro as preocupações comezinhas, as fisgadas da aflição, as contas intermináveis, a falta de tempo, a saúde. Depois o filme dentro da cabeça vai ficando mais denso, pastoso, pesado. E nós, assistência cativa, presos na sala de projeção, quase nunca escapamos dos filmes das nossas insônias. E assim, desfilam perante nossos olhos fechados ou abertos imagens fantásticas que voam e revoam enquanto as horas escorrem lentas, até sermos salvos pelo sono, pelo despertador ou pelos passarinhos, que não importa onde estejamos sempre surgem e anunciam o dia.



Na insônia, não há hierarquia, nem etiqueta, nem patente. As lembranças não pedem licença, apresentam-se, revelam-se, impõem-se mal educadas. De repente você se lembra daquelas pessoas que não passaram de figurantes na sua vida: a vizinha da sua avó, a cozinheira da escola, o segurança do supermercado. Lá estão os cadernos de caligrafia, a textura solene das toalhas engomadas, o aconchego dos cheiros familiares: bolo quente, a baunilha do mingau, a alfazema dos lençóis, o perfume da mãe. Sem querer, nem pra quê você pensa numa roupa que não usa há tempos, num restaurante que você gostava e deixou de ir ou num objeto que nunca mais viu e que deveria estar ali. Tem que ficar atento: a insônia é paranóica, tem mania de perseguição, de conspiração, gosta de drama mexicano. Outra coisa: a insônia mente, sonega, pertuba. Não ponha a mão no fogo por ela, nem compre um carro dela. Enfim, desconfie do que você decidir quando tiver insônia, lembre-se de que à noite todos os gatos são pardos e todos os pardos são gatos!


Listas! Insônia adora listas: de compromissos, de lugares já visitados, de convidados para festas imaginárias, de desafetos, ex-namorados, compras, viagens, amigas do ginásio.

A insônia tem parentesco com bibliotecárias, quer organizar, catalogar, arquivar bem arquivado tudo que não cabe em canto nenhum, coisas que se mexem, que transbordam, que fogem. A insônia tem ares de domadora, quer controlar tempestades, vendavais, acontecimentos mas no fundo é péssima conselheira, é ansiosa e destemperada. Às vezes, tem arroubos de sabedoria, é verdade, mas como advoga em causa própria constrói castelos em penhascos, inventa álibis, julga e condena com leviandade. É tirana, tem parte com carcereiros e torturadores, é cria de porões e masmorras.



A insônia é um arremedo mesquinho e patético do inferno. Aliás, a insônia é um supermercado de miniaturas de infernos. Nas prateleiras da insônia estão expostos todos os nossos infernos, inferninhos, infernaços. Os fantasmas, os pavores, os assombros, os remorsos, as revoltas. Tudo chega, confere, cutuca para depois diluir-se em vazios e esquecimento. Na insônia o desespero das horas lentas, dos becos sem saída, das orações não atendidas, dos pactos rompidos, dos diagnósticos decisivos, dos desencontros, dos mal-entendidos, das dívidas implacáveis, das dúvidas atrozes. O vôo randômico das imagens, as armadilhas da memória, as lembranças redentoras ou nocivas Tudo invade, visita, perpassa o pensamento. Palpitações, suores, arquejos, lágrimas e as horas a escorrer inclementes, esculpindo bolsas sob os olhos, olheiras, e pálpebras inchadas.



A insônia é uma espécie de locadora dos filmes da sua vida, arquivo vivo do que deveria estar morto ou esquecido. Na insônia, o rever enlouquecido dos acontecimentos, o repassar das brigas, das traições, dos mal-estares, dos estresses. Os impasses, as demissões, as conversas inadiáveis ensaiadas exaustivamente. As palavras ríspidas, ferinas, destrutivas ecoam desconfortáveis, ásperas, arranhando a consciência, abrindo feridas, destilando venenos. Ah, as palavras... São como insetos impertinentes a zunir e perturbar. As palavras duras, grosseiras, perversas ficam martelando insepultas. As palavras que nos feriram e as que calamos ficam murmurando ressentimentos, vinganças pois são obsessivas e rancorosas as palavras que habitam nossas insônias.



Mas, a insônia tem vida curta...



Enquanto nos debatemos em labirintos de espelhos e ecos, a noite tece a aurora com fios de luz até que o dia acontece com suas certezas simples e suas verdades ordinárias e nós também amanhecemos, libertos

Um comentário:

Kaká Bullon disse...

A unha...
A maior e mais golpeada vítima da insônia!

Faltou ela.

Beijos