Quando me distraio esqueço que sou só. Traio a solidão. Saio da casca sem perceber. Lá vou eu, semente rompida, desafiando a luz e o ar. Buscando alturas.
Quando me distraio me afasto dos astros e clamo por desastres, desatenta aos perigos que a vida segura e planejada esconde. Saio na chuva, firo com ferro, brinco com fogo, semeio tempestade. Quero o avesso, o lado opaco do espelho, o talho na carne. Rio saciada porque viver nunca é demais e assim morte se diverte e me esquece.
Quando me distraio passeio minha tristeza e minha alegria, calmamente, lado a lado, indecentes, expostas, naturalmente minhas, como minha mão direita e minha mão esquerda. Passeio minha dor e meus medos como se não doessem nem assustassem e me compadeço da menina por detrás deles. Lá vou eu, distraída, cheia de sombras, risos, perdas e loucuras, em pleno sol do meio dia, no meio da rua, sem meios termos, inteira. Tudo que sinto é meu, de uma forma comovente, que eu só percebo quando me distraio.
Quando me distraio reencontro caminhos que nunca percorri, sonhos abandonados, amores esquecidos, curo algumas feridas, corrijo rumos e sinto saudades das coisas que não vivi e não senti, cujas lacunas ecoam e pulsam, como membros amputados.
Quando me distraio converso com os mortos e com os estranhos. Desfilo minha alma desnuda e meu corpo cansado seguida por um cortejo de anjos e demônios, mestres e algozes, pai, mãe e inimigos. Eu e todos, eu no todo. E nada me fere quando estou distraída porque distração é imunidade e bênção.
Quando me distraio desfaço os planos, desprezo os mapas, dispenso conselhos. Sigo solta, absorta, absolvida. Não sou só, não sou triste, não vou a parte alguma. Sou livre.
Quando me distraio esqueço o que sei, saio da fôrma, espicho o olhar, estendo a alma ao vento feito bandeira, feito asa e toco a eternidade, a plenitude, a saciedade e tudo que não vejo quando estou atenta.
É quando estou desarmada que a vida me encontra.
É quando estou prevenida e pretensiosamente preparada que a vida me erra e se perde de mim.