É estranho, é como uma má criação que faço a mim mesma. É uma forma de sonegação. Um adiamento. Um contratempo inventado. Tudo vira desculpa, tudo me distrai, tudo me desvia. Me perco em bobagens, em devaneios, em burocracias, em desânimos. Sei o que devo fazer mas me boicoto, não faço acontecer, não compareço.
Me boicoto quando evito emoções por medo de vivê-las. Dou motivos coerentes, faço avaliações lógicas e críticas demolidoras só para justificar minha paralisia, minha insegurança mesmo sabendo que tudo que eu quero são novas e boas emoções. Me boicoto quando penso burramente que melhor não ter do que perder. Me boicoto quando rejeito mudanças e afasto o novo. Quando procuro as velhas fórmulas e repito as mesmas receitas. Quando caio nas mesmas armadilhas e piso nas mesmas cascas de banana. (E aquele cafajeste de plantão que é um tiro no pé? E a lista de decisões e desejos esquecida no fundo da gaveta? E a permissão para aquela amiga invejosa, baixo-astral, freqüentar a sua vida, vasculhar sua intimidade?).
Há boicote na aderência aos hábitos, no comodismo, na preguiça. Há boicote na idéia de que segurança e proteção são sinônimos invulnerabilidade e conforto. Há boicote quando nos trancamos em nossas gaiolas douradas ou celas de cadeia e deixamos a vida lá fora.
Me boicoto toda vez que o meu medo fica maior que o meu desejo. Toda vez que me encolho, me acomodo ou me deixo intimidar. Toda vez que aceito o destino como uma sentença, toda vez que me conformo ou visto carapuças. Me boicoto quando me invisto de culpas e desculpas que me afastam do que acredito e me faz bem e minto para mim mesma. Me boicoto toda vez que me acovardo.
Haverá boicote sempre que a coragem for menor que o sonho.